Às vezes procuramos uma metáfora e ela foge-nos. Quis assemelhar a vida a um lápis que se vai gastando à medida que se afia. Pareceu-me boa. Os primeiros anos são de esforço de adaptação e depois a idade aguça-nos. Mas a metáfora escapuliu-se. Um lápis é demasiado linear para representar a vida. O lápis, do um doze avos ao onze doze avos, escreve, ainda que por vezes se parta o carvão ou a madeira se esfarele ao afiar, se for de má qualidade, e isso não traduz bem ao ritmo da vida. Nesta altura, a metáfora já fugiu para dentro de uma floresta densa e espinhosa onde me posso ferir ao tentar alcançá-la. Depois, a duração de um lápis não corresponde apenas ao uso que dele se faz; tenho alguns lápis de carvão há muitos anos, nos quais só muito intermitentemente toquei, ao passo que a vida avança a um ritmo constante. Nesta altura, já perdi a metáfora-lebre de vista. Por diversão ou teimosia, ainda a persigo, afasto os ramos e tento apanhar dela um vislumbre. Talvez consiga assemelhar a velhice aos cotos com que já ninguém quer escrever e que se deitam fora sem pensar duas vezes. Mas, não, nada a fazer, sumiu-se. Resta-me vir embora e reparar que os espinhos me encheram as mãos e os braços de riscos vermelhos, rabiscando-me numa língua incompreensível.